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Jim & Andy, e sobre ser nós mesmos


Era apenas uma criança quando vi Jim Carrey pela primeira vez no cinema, com Ace Ventura. Depois ainda fui levado para ver 'Debi e Loide' e 'O Máscara', três blockbusters de humor que catapultaram a carreira de Carrey como um dos grandes e o fez um dos meus comediantes favoritos. Difícil eu não ter visto um filme dele desde então. Vi os relacionado ao humor e as suas tentativas em outro gêneros - 'Brilho eterno de uma mente sem lembranças' é magnífico. - Mas realmente nunca vi 'O mundo de Andy', a premissa do documentário Jim e Andy: The Great Beyond.

Andy Kaufman foi um famoso comediante que quebrou todos os paradigmas do humor nos anos 70. enquanto todos tentavam mostrar-se cada vez mais um humor sofisticado, Andy partiu do simples, ou melhor dizendo, do ruim. Ele fazia questão de ruim e sua graça vinha disso, trabalhando não apenas com o humor, mas brincando de incitar sentimentos nas pessoas, que o tornaram muito popular nos anos 70 e 80, até morrer de câncer no pulmão em 1984.

Grande fã de Andy, Jim Carrey já consolidado como astro de Hollywood, abdicou todo o seu ego para fazer um teste e passar para ser o personagem principal da cinebiografia de Kauffman. E durante as gravações, decidiram fazer um documentário sobre os bastidores do filme, que ficaram trancados por vinte anos, pois Jim não apenas encarnou Andy, mas se tornou o próprio, utilizando do artifício muito usado por Andy, que sempre continuava as piadas quando as câmeras desligavam, deixando as pessoas na dúvida se era apenas ou piada, ou ele estava falando sério. Ele foi Andy o tempo todo das filmagens, e ele explica no documentário que o espírito de Andy Kauffman 'incorporou' nele. Isso soou meio assustador para os produtores do filme, que decidiram trancar esses vídeos, pois eles temiam que isso poderia manchar a imagem de Carrey.

Ao encarar literalmente a persona de Andy - E Tony Clifton, cantor que adorava irritar os outros, famoso personagem de Andy - Jim mostra a força criativa que existia dentro dele e todo o processo complexo que ele fez para ser o personagem, algo parecido que Daniel Day Lewis faz ao incarnar seus personagens. Por amar Andy, uma de suas inspirações para se tornar comediante, Carrey deu tudo de si para que fosse perfeito, para as pessoas vissem Andy quando o vissem. E foi o que aconteceu, inclusive para a família de Andy, em alguns dos momentos mais tocantes do documentário, falam com Carrey como Andy e ficam com os olhos marejados e Carrey tem o controle emocional incrível de se manter no personagem.


A atuação vinte e quatro horas de Jim Carrey como Andy levou a direção, a produção, atores e quem estivesse perto a embarcar nessa loucura junto com ele, em uma viagem criativa que não terminava quando as câmeras desligavam. E durante as filmagens, não se via mais Carrey, via-se apenas Andy. Muita gente no set achou o verdadeiro filme estava sendo feito atrás das câmeras. Isso pode ter afetando o longa, que não fez o sucesso esperado - o que é uma pena pois a atuação de Carrey merecia ser melhor lembrada, vista a sua dedicação para o papel.

Mas mergulhar tão fundo em uma persona tão densa quanto a de Andy Kauffman tem consequências. Jim admite no documentário que sofreu para se desvencilhar do personagem, algo que modificou sua vida para sempre.

O documentário acerta em contar várias histórias paralelas, como se estivéssemos vendo vários filmes simultâneos: um sobre as gravações de 'O Mundo de Andy', onde vimos um verdadeiro tributo ao polêmico comediante, e outro, contando a vida de Jim comentada pelo próprio.

E é nessa parte que mostra quem é a pessoa atrás do comediante Jim Carrey e como ela foi modificada após esse filme. Como ele mesmo disse, a fama o fez criar um monstro, que fazia as pessoas rirem, que não representava ele totalmente. Ao ter que se reencontrar, Jim, foi quebrando esse monstro e se livrando dele, para não fazer apenas comédia com os fatos tristes de sua vida, e ser apenas o ator que o fez seguir o caminho dos filmes.

Carrey não liga mais em ser o astro blockbuster como nos anos 90, sua visão mais pessimista e realista da vida é exemplificada quando ele diz "O que você faz quando você realiza seus sonhos e continua infeliz?" No documentário não vemos em nenhum momento aquele Jim Carrey, só vemos James Eugene Carrey, divagando com melancolia sobre sua vida, sucesso, medo, começa a entender porque ele abandonou o show business, doou boa parte de seus bens e está na busca de seu 'eu interior'. E faz a gente pensar, mesmo que não concordemos com todas, também sobre a vida que estamos levando. 

Afinal, não só no show business, mas na vida vemos gente encarnando personagens, para ser queridos ou para agradarem A ou B, e depois vemos as pessoas perdidas, sem mais saber se encontrar? No fim, o documentário é sobre ser você ser mesmo, sem criar máscaras para agradar ninguém e fazer o que se acha certo. Assim era Andy e depois de muito tempo, Jim entendeu a mensagem. ao menos é o que parece.


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