Pular para o conteúdo principal

A tragédia que mudou o Liverpool (e todo o futebol inglês)


Trinta anos atrás uma tragédia mudava profundamente o futebol inglês e especialmente um clube: O Liverpool. em partida pela semifinal da copa da Inglaterra contra o Nottingham Forest, o jogo foi interrompido por conta da superlotação do estádio de Hillsborough, onde morreram 96 pessoas.

A federação inglesa de futebol (FA) decidiu que a partida fosse disputada no estádio do Sheffield wednesday, um campo neutro, por conta do encontro de duas das torcidas mais violentas da Inglaterra. Os anos 80 era o auge dos Hooligans, tanto que é os clubes ingleses ficaram cinco anos suspensos de competições europeias por conta da tragédia de Heysel, feita por torcedores do Liverpool e da Juventus que fizeram uma verdadeira batalha campal na cidade belga e no estádio.

O problema era que Hillsborough era pequena demais para um jogo daquele tamanho- 10 mil lugares. Eram dois campeões europeus e nos 80 eram os grandes times ingleses na época, apesar de em 89 o Nottingham estava em declínio se comparado ao início da década. Mas era um estádio separado por grades e assim a FA pensou que poderiam controlar os ânimos dos hooligans com isso.

O que sabe é que o estádio só teve uma das sete catracas de entrada funcionando no dia do jogo e com isso, criou um funil de gente que tornava difícil a entrada de quem comprou o ingresso. Então decidiram (até hoje não se sabe quem exatamente) abrir o portão de saída da parte do estádio onde você podia assistir em pé a preços populares, como a antiga geral do maracanã. Só que a porta só foi aberta, sem controle nenhum.

Com isso, as pessoas não paravam de entrar sem saber como estava o estádio e quem já tinha se posicionado começa a ficar espremido contra a grade. A polícia não entendeu que quem começava a pular a grade, estava tentando se salvar e tomavam uns corretivos por estarem invadindo o campo. Quem não conseguiu pular acabava sendo esmagado e/ou asfixiado. Aos dez minutos, o jogo foi interrompido e assim as pessoas iam pulando a grade. Mas o estrago estava feito. 96 pessoas morreram e 766 ficaram feridas

Uma tragédia sem precedentes no futebol inglês, que causou profundas mudanças no esporte. As grades foram abolidas dos estádios e a repressão aos torcedores briguentos foi implacável. Mas logo após a tragédia, a mídia sensacionalista inglesa culpou a torcida do Liverpool pelo ocorrido. Além da dor da tragédia, os torcedores viram os dedos de todos britânicos apontados para eles por conta de uma reportagem do jornal 'the sun', que dizia que tudo aconteceu por conta de uma confusão criada por torcedores bêbados, que agrediam quem tentava salvar os feridos e agrediam os policiais. Versão feita pela polícia que o jornal publicou

A dor e a acusação injusta acabou unindo Liverpool e seus torcedores de foram jamais vista. O clube tratou de fazer que essa data nunca fosse esquecida e se uniu aos familiares das vítimas em busca de justiça pelo o ocorrido, fazendo jus ao seu famoso slogan 'You'll never walk alone'. Os torcedores resolveram fazer um boicote ao The sun, e o 'Don't buy the sun' virou uma expressão típica do local.

Em 2009 um outro relatório independente refutou as acusações da polícia na época,dizendo que o depoimento de 116 pessoas foi alterado pelo governo britânico - liderado na época por Margareth Thatcher -removendo comentários desfavoráveis à polícia e para que a culpa caísse nos torcedores do Liverpool e que nunca teve nenhuma comprovação de torcedores estavam bêbados. Em 2012, o The Sun se retraou em uma edição pedindo desculpas aos familiares das vítimas. Mas até hoje, os jonralistas do The Sun não podem pisar no Anfield. A FA e até o primeiro ministro David Cameron fizeram um pedido de desculpas público ao Liverpool e aos familiares das vítimas, que nunca deixaram de lutar por justiça.

Um processo foi aberto somente em 2012, mas anda a passos de tartaruga. Só em 2016 a justiça britânica determinou os culpados pela tragédia: seis pessoas. O ex-diretor do Sheffield Wednesday  terá sua setença divulgada em maio e o ex-chefe de polícia responsável pela segurança na época teve um veredicto inconclusivo, mesmo admitindo que foi dele a ordem para que só abrisse um portão apenas, além de atrasar a entrada do atendimento médico no estádio. Mas a certeza entre todos os familiares das vítimas é que existem muito mais culpados pela tragédia que se livraram por conta do tempo

 Virei torcedor do Liverpool primeiro pelo esportivo (entenda-se: MILAGRE DE ISTAMBUL), mas depois ao entender a sua história e de como o clube e seus torcedores se modificaram por conta dessa tragédia, eu passei admirar mais ainda o clube -e a cidade, já que os torcedores do Everton abraçaram a causa do Liverpool, o que mostra que a rivalidade só existe dentro de campo -  e seu lema, que é levado ao pé da letra por qualquer torcedor, não deixando ninguém caminhar sozinho e sem desistir para que justiça seja feita, mesmo 30 anos após o ocorrido.

PS: Esse texto do Trivela é ótimo para mostrar como a cidade Liverpool não desistiu um só instante de pedir justiça aos 96 mortos na tragédia https://trivela.com.br/cidade-que-nunca-esquece-ainda-tenta-superar-injustica-de-hillsborough/

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Linkin Park: modernizando o passado para um novo futuro

E o Linkin Park voltou. Gostando ou não, estamos falando da volta da última grande banda de rock que furou as bolhas e entrou no mainstream, por conta de todo o seu impacto no cenário musical na primeira década, e ditando o que o foi chamado de Nü Metal com o seminal 'Hybrid Theory'. Seu fim repentino por conta da trágica morte de Chester Bennington em 2017, deixou um vácuo que bandas não conseguiram repor. E sete anos depois, eles estão de volta com tudo. As adições fizeram bem ao som da banda, que faz um som seguro com a marca 'linkin Park' sem deixar de olhar pra frente com algumas experimentações típicas do grupo. Mike Shinoda deixou claro que este álbum é uma celebração ao legado do passado, presente e futuro da banda, o que ficou bem bem nítido na primeira audição. A aura do Linkin Park que conquistou uma geração está lá, falando sobre temas mais pessoais, como relacionamentos tóxicos, manipulação emocional, brigas com seus demônios internos, como depressão e até ...

Foo Fighters: Escancarar a dor para curá-la

O compositor tem uma uma relação instigante com a música. É onde ele externa suas alegrias e tristezas para que elas saiam de si e vão encontrar o mundo e quem sabe ajudar a quem ouvir. David Grohl, que do luto pelo fim do Nirvana criou o Foo fighters, resolveu fazer do recém álbum lançado, 'but here we are', uma grande terapia coletiva para que ele, sua banda e o todos os fãs pudessem passar melhor por esse luto da perda do baterista Taylor Hawkins  E Se os fãs tiveram o duro golpe de perder o querido baterista - o que por exemplo me deixou meses sem ouvir músicas do Foo Fighters por conta da dor dessa partida repentina - Grohl teve uma dor muito pior para se somar a essa meses depois: A perda de sua mãe, Virginia por conta de um câncer aos 84. Aquela que deixou um moleque seguir seu sonho de viver música e foi o grande norte do músico durante toda a vida.  E todas as letras são guiadas pela tentativa de Grohl superar essas duas perdas. A música que abre o disco é um o já hit...

System Of a Down: O seu melhor dia no pior dia do mundo

Após um bom álbum de estreia, que abriu portas no mercado estadunidense, abrindo shows de bandas como Slayer e Metallica, o System of a Down resolveu dar o passo maior em meados de 2000: fazer um álbum que estourasse a banda no mundo. Os ingredientes eles já tinham: Um bom som, uma mistura de rap,rock,heavy e trash metal com uma pitada música armênia que deveria soar deveras estranho, mas por causa de tanta estranheza agradava os ouvidos da galera. E eles se juntaram a um senhor produtor chamado Rick Rubin, que já tinha produzido o primeiro álbum de 1998 após vê-los tocando na cena underground de Los Angeles no ano anterior. E em dezenas de composições, foram escolhidas as canções do álbum 'Toxicity' - as descartadas naquele momento fariam parte do 'Steal this album!' de 2002. A um mês do lançamento, foi lançado o clipe de 'Chop Suey!', uma canção que trouxe o SOAD à glória, mas quase o levou ao 'inferno'. Antes de mais nada vou tentar 'explicar'...